20/08/2026

A OAB E O JÚRI ÉPICO: QUANDO A ADVOCACIA ENTRA NO PALCO DA HISTÓRIA

Autor: Erivelton Lago - advogado criminalista, presidente da Comissão de Prerrogativas da OAB Maranhão.

O Júri Épico traz de volta grandes personagens da história do Brasil. Homens que participaram da formação política e social do país e mulheres que, enfrentando o silêncio e a submissão impostos por suas épocas, escreveram capítulos importantes da luta feminina por liberdade, poder, respeito e igualdade.

Mais do que uma reprodução do Tribunal do Júri, o Júri Épico é um acontecimento jurídico-cultural que reúne Direito, teatro, história, oratória e filosofia. Sua proposta consiste em reconstruir simbolicamente o julgamento de personagens históricos ou lendários, permitindo que suas condutas sejam examinadas não apenas pelas leis de seu tempo, mas também pelas inquietações morais, sociais e jurídicas do mundo contemporâneo.

No palco, os fatos históricos ganham movimento. A acusação denuncia, a defesa argumenta, as testemunhas revivem suas memórias e os jurados são convidados a decidir. Entretanto, não são julgadas apenas pessoas: julgam-se também os costumes, os preconceitos, as desigualdades e as contradições de uma época.

O Júri Épico não pretende alterar a história, mas retirá-la da imobilidade dos livros. Os personagens deixam de ser simples nomes escritos em páginas antigas e voltam a falar, a amar, a sofrer, a lutar, a errar e a se defender. Com isso, o público percebe que nenhuma existência humana pode ser compreendida fora de seu contexto histórico.

Ao mesmo tempo, o evento promove o aperfeiçoamento das técnicas de argumentação no Tribunal do Júri. Advogados, promotores, magistrados, professores e estudantes são desafiados a construir teses, interpretar documentos, confrontar versões e transformar conhecimento jurídico em linguagem compreensível e persuasiva. O palco converte-se em sala de aula; a história transforma-se em processo; e a arte torna-se instrumento de reflexão sobre a Justiça.

Essa dimensão alcançou especial grandeza com o julgamento de Ana Jansen e de Ana Rosa Viana Ribeiro, a Baronesa do Grajaú, realizado em São Luís do Maranhão. Duas mulheres marcantes, cercadas por histórias, acusações, lendas e controvérsias. Mulheres que viveram em uma sociedade escravocrata, patriarcal e profundamente desigual, mas que, apesar das limitações impostas ao sexo feminino, ocuparam espaços de influência e poder tradicionalmente reservados aos homens.

Revisitar essas personagens não significa absolvê-las previamente, condená-las novamente ou apagar as dores de seu tempo. Significa compreender que a história é mais complexa do que os rótulos construídos ao longo das gerações. Significa perguntar quanto há de realidade nas acusações, quanto há de lenda e quanto há de preconceito contra mulheres que romperam as fronteiras sociais de sua época.

A grandiosidade dessa imersão artística, jurídica e simbólica tornou-se ainda mais evidente quando o Júri Épico conduziu a juventude jurídica ao imponente Teatro Arthur Azevedo, uma das maiores maravilhas arquitetônicas e culturais do Maranhão. O teatro, que tantas vezes recebeu grandes espetáculos da dramaturgia, da música e da cultura brasileira, abriu suas portas para receber a arte da argumentação e a solenidade do Tribunal do Júri.

Naquele espaço histórico, estudantes de Direito encontraram profissionais experientes da advocacia maranhense e criminalistas vindos de vários estados da Federação. As novas gerações puderam assistir, de perto, à construção das teses, ao uso da palavra, à organização do raciocínio e à emoção que caracteriza a defesa da liberdade humana.

Esse encontro possui um valor que ultrapassa o próprio espetáculo. Quando o jovem estudante vê o advogado no palco, argumentando diante dos jurados, ele não contempla apenas uma profissão: vislumbra uma possibilidade para o seu próprio futuro. Quando o profissional experiente divide sua técnica com os mais novos, a advocacia preserva sua memória e assegura a continuidade de sua tradição.

Nesse cenário, a participação da Ordem dos Advogados do Brasil foi decisiva. A OAB não é apenas a instituição encarregada de representar os advogados e defender suas prerrogativas profissionais. Ela também possui o dever de promover a cultura jurídica, valorizar a advocacia, estimular a formação das novas gerações e aproximar o Direito da sociedade.

Ao apoiar o Júri Épico, a OAB demonstrou compreender que a advocacia não vive somente nos fóruns e tribunais. Ela também vive na literatura, na filosofia, na história, na arte, na memória coletiva e na capacidade humana de argumentar. A Justiça não é feita exclusivamente de leis e processos; ela também é feita de cultura, sensibilidade e consciência histórica.

Na pessoa de seu visionário presidente, Kaio Saraiva, a Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do Maranhão, reconheceu a importância e a dimensão transformadora do projeto. Ao acolher essa iniciativa, a instituição não permaneceu como mera espectadora. Tornou-se personagem ativa de um movimento que aproxima a advocacia da sociedade e transforma a cultura jurídica em experiência viva.

A presença da OAB conferiu ao evento não apenas apoio institucional, mas também legitimidade, grandeza e compromisso com o futuro da profissão. Foi a demonstração de que uma Ordem verdadeiramente forte não se limita a reagir aos problemas cotidianos da advocacia: ela também cria caminhos, ocupa espaços culturais, inspira a juventude e participa da construção da história.

O Júri Épico mostrou que o Direito pode ensinar sem perder a emoção; que o teatro pode divertir sem abandonar a reflexão; e que a história pode ser revisitada sem deixar de respeitar as dores, as conquistas e as contradições do passado.

Naqueles dias memoráveis, a OAB entrou no Teatro Arthur Azevedo. Entrou na festa épica da advocacia. Entrou no palco em que o Direito encontrou a arte, a história e a cultura. E, sob a liderança do presidente Kaio Saraiva, entrou definitivamente para a história ao participar da realização de um dos maiores espetáculos da cultura jurídica de que se tem notícia.

Porque existem acontecimentos que simplesmente passam pelo tempo. Outros, porém, transformam-se em memória. O Júri Épico pertence a estes últimos: é o momento em que a história se levanta dos livros, ocupa o banco dos réus e, diante da sociedade, pede novamente o direito de ser ouvida.

 Erivelton Lago – Advogado Criminalista

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