03/02/2026

AS IDEOLOGIAS EM CRISE

Autor: Por Sergio Tamer

Há quem considere todas as ideologias políticas escravizantes. O ideólogo, em sua meditação intelectual, idealiza uma sociedade perfeita, sem pobreza, sem fome, e se possível com prosperidade e bem-estar, lança as bases de sua teoria e um louco qualquer, em determinado tempo e momento histórico, tenta colocar essa “camisa de força” em um povo, fazendo com que aquela cultura, aquela realidade social passe a se enquadrar dentro daquele novo sistema político concebido em bases teóricas.

A história está repleta de exemplos dessa natureza e lembramos aqui apenas alguns dos mais notórios no século 20: o regime do Khmer Vermelho(1975-1979), liderado por Pol Pot, que matou mais de 6 milhões de pessoas no Camboja para implantar aquele novo sistema; na China de Mao Tsé-Tung (1949-1976), entre 15 a 45 milhões de pessoas morreram devido a políticas econômicas forçadas que geraram fome em massa, expurgos políticos, execuções e trabalho forçado, tudo em nome de uma “Revolução Cultural”; na Rússia de Josef Stalin (1924-1953), por sinal muito admirado pelos estalinistas brasileiros, o marxismo deu origem a um regime de terror, expurgos em massa e repressão política sem precedentes, resultando na morte de milhões de pessoas através de execuções, campos de trabalho forçado (Gulags) e fomes provocadas, especialmente no período mais intenso de assassinatos políticos, de 1937-1938, quando cerca de 1,2 milhão de pessoas foram executadas com um tiro na nuca; a Alemanha de Hitler (1933-1945) foi responsável por um dos períodos mais violentos da história, caracterizado por assassinatos em massa sistemáticos, genocídio e perseguição política, resultando em uma estimativa de 45 milhões de mortes. Como se sabe, a ideologia nazista era focada no nacionalismo extremo e na superioridade racial, buscando a “pureza racial”; o fascismo italiano, liderado por Benito Mussolini entre as décadas de 1920 e 1940, foi uma ideologia totalitária, antiliberal e ultranacionalista que pregava a supremacia do Estado sobre o indivíduo, a unificação nacional absoluta e a restauração da grandeza da Roma Antiga. O lema principal que resumia sua postura, lema esse que por sinal muito agrada ainda hoje aos esquerdistas em todo o mundo, inclusive no Brasil, era: “Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado”…; o bolivarianismo chavista, tão admirado pela ala esquerdista brasileira, é uma releitura de Simón Bolívar, adaptada para um contexto de esquerda no século XXI, caracterizado por uma forte liderança carismática. Para cumprir o seu ideário populista, o Estado venezuelano passou a controlar todos os setores da economia mediante censura cultural e cerceamento à liberdade de imprensa; os regimes muçulmanos, representados pelos aiatolás, nomeadamente no Irã, também lideram a lista de ideologias que tanta barbárie promoveram; finalmente, e para ficarmos somente no século passado, a Revolução Cubana de 1959 propunha a libertação nacional contra a influência dos Estados Unidos, o fim da ditadura de Fulgêncio Batista e a construção de uma sociedade socialista. Sob a liderança de Fidel Castro e Che Guevara, substituíram uma ditadura por outra, tornaram-se satélite da antiga União Soviética e distribuíram pobreza e atraso ao povo cubano.

O neoliberalismo também é uma ideologia, mas o liberalismo difere daquele por ser uma doutrina que reúne princípios de várias correntes históricas do pensamento universal, tanto no campo econômico, político, como no social, uma espécie de sistema organizado, racional e lógico de princípios. A China, por isso, logo percebeu que precisava mudar e enterrar o período tenebroso de miséria da ideologia comunista de Mao Tse-Tung. Foi aí que surgiu, no campo econômico, a ideia de substituição da ideologia pela mercado, ou seja, a busca pela eficiência para que o país pudesse distribuir prosperidade real à sua população, não importando se a política a ser adotada era “comunista”, “socialista” ou “liberal”. Coube a Deng Xiaoping, ao proferir a famosa frase “não importa se o gato é branco ou preto, contanto que cace ratos” -, dar a senha para a grande virada que viria a ocorrer naquele país. A frase simboliza o pragmatismo econômico adotado na China a partir do final dos anos 70, priorizando resultados de desenvolvimento sobre a ideologia estrita.

Os americanos, em busca do tempo perdido, rasgam agora seus princípios políticos universais para privilegiar ainda mais a economia. No bojo dessa nova onda, reaparece, com notável destaque, a ideologia do nacionalismo.

Embora sendo ela presente em quase todas as demais ideologias – na democracia, no fascismo e no comunismo – a ponto de no século 20 ter sido conhecida como “a era do pan-nacionalismo”, o certo é que agora, com o enfraquecimento e a crise das ideologias, o nacionalismo passa a reinar com notória prevalência. Trata-se, no entanto, de um sentimento humano primitivo, tribal, de autopreservação de grupos sociais que passou, com o tempo, às nações-estado, hoje fortemente impulsionado pela questão econômica. A xenofobia e a perseguição aos imigrantes é apenas uma pequena e visível parte desse fenômeno. E nessa acirrada disputa pela hegemonia econômica os vencedores, como já se vislumbra agora, terão o comando do planeta, pois estamos saindo do multilateralismo e retornando à uma ordem internacional multipolar, caracterizada pela competição econômica, tecnológica e militar sob a forte influência dos EUA, China, Rússia, União Europeia e Índia. Essa a razão para a economia ser um motor central nesse processo em substituição às ideologias que tantas mortes e atrocidades causaram aos seus povos.

Mas é preciso, por igual, ter cautela com o ressurgimento do nacionalismo, pois como já no século 19 afirmava John Stuart Mill, essa ideologia torna os homens indiferentes aos direitos e interesses de “qualquer porção da espécie humana, salvo aquela que é chamada pelo mesmo nome, e fala a mesma língua deles”…

Sergio Tamer é professor e advogado, presidente do Centro de Estudos Constitucionais e de Gestão Pública – CECGP

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